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Dando continuidade ao meu trabalho clínico com mandalas, unindo a Terapia Cognitivo-Comportamental e a Arteterapia, utilizei o papel vegetal e o lápis de cor aquarelável para representar o funcionamento de nossa reestruturação cognitiva.
A terapia cognitivo-comportamental trabalha com a dinâmica de que pensamentos geram emoções que influenciam os comportamentos. Neste ciclo, temos as consequências que irão reforçar os pensamentos. Os pensamentos disfuncionais fazem com que todo o ciclo também seja disfuncional.
Para representar como pensamentos, sentimentos e comportamentos influenciam um ao outro, utilizei no atendimento clínico tais materiais, que são improváveis de utilização juntos, pois esse tipo de lápis requer o uso de água, o que não é o mais indicado para o papel vegetal.
Os pacientes já possuíam tempo de experiência com o trabalho de mandalas, descrito no texto anterior. Pedi que desenhassem sua própria mandala e que posteriormente fosse colorida com o lápis de cor aquarelável, trabalhando a ação e as escolhas pessoais.
Neste primeiro momento, conversamos sobre a sensação que tiveram ao colorir no papel vegetal, em comparação aos outros papéis. Como resultado, as pacientes MC (13 anos) e J (32 anos) acharam bem mais fácil este material e as outras duas P (27) e V (53 anos) descreveram que foi preciso muito esforço para concluir a tarefa, sentindo-se desconfortáveis.
Esta etapa mostra como cada pessoa tem a sua percepção e que ideias diferentes fazem parte do processo, não sendo nenhuma das opções certa ou errada. Comentei sobre as sensações entre as participantes, que se surpreenderam com a opinião contrária das outras.
MC. realizou a atividade com tranquilidade, sem sentir desconforto em nenhum momento. Com ela, está sendo trabalhada a ampliação de possibilidades de socialização, com foco em desenvolver habilidade social. A paciente J. sentiu-se confortável para colorir, porém esta apresenta o sabotador controlador, deixando-a desconfortável com o “movimento” realizado no papel, conforme a quantidade de água que vai sendo colocada. A paciente P. conforme ia colorindo, apresentou cansaço e respiração ofegante, realizamos a atividade em dois dias. Colocou bastante água no centro do papel, que em pouco tempo, enrolou suas laterais. Na etapa da água, sentiu-se mais confortável. E com V. foi necessário realizar a atividade duas vezes, pois na primeira mandala a mesma sentiu “medo” em pintar com a água e não quis arriscar o resultado, ficando quase imperceptível o uso da água. Depois que conversamos sobre o processo, na sessão anterior, foi realizada novamente a atividade, porém ainda preocupada com as cores borrarem e o trabalho ficar “feio”. Por isso foi apresentada acima, como um exemplo da atividade antes da utilização da água.
Ao utilizar a água, elemento que trabalha a emoção, o papel vegetal foi ganhando um novo formato, enrolando e se tornando mais granulado, perdendo sua forma lisa. E não somente as partes em que foi utilizada a água, mas toda a extensão do papel sofreu alteração em sua forma.
Aqui, foi possível perceber, que trabalhando com um dos elementos, os outros serão também reestruturados. Por exemplo, é possível flexibilizar o pensamento tornando mais funcional, que as emoções e os comportamentos também sofrerão mudanças. Assim, através da mudança da textura da mandala é possível trabalhar o autoconhecimento e ampliar a visão sobre si mesmo, melhorando a autoestima.
Além disto, é importante lembrar que, não vivemos isolados do mundo e que somos influenciados pelo mundo externo, assim como influenciamos ele. Umas das dúvidas apresentadas no consultório é se é possível modificar o outro, através de uma reestruturação cognitiva pessoal. Em uma relação estímulo e resposta, ao ser apresentada uma nova resposta, automaticamente o estímulo “solicita” uma alteração no comportamento. Isto é, através de uma mudança pessoal é possível influenciar algumas características do outro, ressaltando que, em essência, o outro só se reestrutura cognitivamente se assim o quiser.
Sendo assim, nesta técnica é possível perceber este diálogo interno com o externo através da mudança de toda a textura do papel vegetal e, não somente, no mandala, onde é utilizada a água.
Referências Bibliográficas:
Thase,Michael E.; Basco,Monica Ramirez; Wright,Jesse H. Aprendendo Terapia Cognitivo-comportamental - Um Guia Ilustrado – Artmed – 2008.
Por Juliana Mello
(Publicado em 13/09/2019)
@vivendotccearte
A terapia Cognitivo-Comportamental – TCC - enfatiza a ideia de que o modo como pensamos afeta nossas emoções e comportamentos. Pensamento, emoção e comportamento estão diretamente ligados, quando um não “funciona” bem, os outros também ficam disfuncionais. Nossas interpretações – pensamentos - sobre as situações têm forte influência na forma como percebemos a nós mesmos, o outro e nosso futuro.
Porém, em muitos casos, é difícil identificar o que estamos pensando ou sentindo. As palavras podem nos faltar, ou não parecerem suficientes para descrever o que nos incomoda, o que nos gera angústia. A Arteterapia nos ajuda a trazer à tona esses pensamentos e sentimentos, de forma lúdica e natural, os conteúdos que não estão conscientes. Nesta metodologia, o paciente pode experimentar-se, facilitando o desenvolvimento e as transformações internas.
Neste caso, trabalhamos a reestruturação do nosso comportamento, e assim, teremos como consequência a flexibilização dos pensamentos e emoções mais agradáveis. A ideia não é mudar o pensamento e deixar de sentir emoções desagradáveis, mas pensarmos em possibilidades funcionais, não excluindo a realidade, mesmo que esta seja desconfortável.
Os sabotadores são nossas reações disfuncionais, que foram desenvolvidos na infância. Porém, nesta fase da vida, nosso cérebro ainda se encontra em sua estrutura mais primitiva e os sabotadores eram necessários para nossa sobrevivência emocional. Ao nos desenvolvermos, eles vão deixando de ser necessários, mas com o “uso” durante muito tempo, eles passam a ser hábitos automáticos no nosso funcionamento e percepção do mundo. Quando eles não são atendidos, é acionado o Crítico Patológico, uma vozinha que fica em nossos pensamentos nos lembrando sempre de coisas desagradáveis e disfuncionais. Esses comportamentos estão quase ou totalmente fora do domínio da Consciência. Para combater o Crítico, precisamos acionar o Sábio, que tem uma estrutura mais criativa e percebe nas situações possibilidades diferentes de resoluções, enquanto o Crítico tem visão focal somente para o negativo. Todos nós possuímos o Crítico Patológico, que vem reforçado por, pelo menos, um ou dois sabotadores (existem 9).
Em meu trabalho clínico, o trabalho com Mandalas tem-se mostrado eficaz no desenvolvimento do Sábio, através das escolhas das formas, das cores, na produção e desenvolvimento de suas próprias Mandalas. Além de trabalharmos esse comportamento, o trabalho com Mandalas trazem à tona, isto é, a Consciência, pensamentos e situações que estão “esquecidas” pelo paciente e que geram sofrimento.
Caso Clínico
Paciente J, 32 anos, casada, trabalha na área de saúde, chegou ao meu consultório em março/18, com queixa de desorganização de suas tarefas diárias e com questões de emagrecimento e falta de continuidade em dietas e tempo para praticar atividades físicas. Não parecia sentir-se confortável para o diálogo, e seu discurso não parecia condizer com a queixa inicial, porém a mesma não faltava a nenhuma sessão. Após aplicar o teste dos sabotadores, o resultado passou a fazer sentido para a paciente e como, estávamos trabalhando comportamento, começamos com o uso dos Mandalas. Seus sabotadores foram: Insistente, Prestativo, Hipervigilante e Controlador. Lembrando que os sabotadores são rígidos e com visão focal.
Iniciei o processo entregando possibilidades de Mandalas para uma ser escolhida. Nesta etapa já trabalhamos a ampliação da visão, a escolha da melhor possibilidade, o olhar para o interno, a descrição de si através das cores, os sentimentos, o fazer criativo. Neste primeiro momento foi possível perceber a diferença dentro do setting do comportamento da paciente, que pareceu mais confortável no ambiente e mais comunicativa.
Posteriormente, o Mandala é feito no papel vegetal, acrescentando ou eliminando elementos do Mandala inicial e a realização de sua própria Mandala.
Nas etapas seguintes são acrescentados Mandalas à serem coloridas com lápis de cor aquarelável, que foram trabalhados sentimentos como: frustração e perfeccionismo (muito forte) e asnisedade.
Em muitas sessões, a paciente expressava que não tinha nada a ser falado, ao fazer as atividades, aconteciam insights e a mesma falava sobre acontecimentos agradáveis e, principalmente, desagradáveis, sendo possível realizar a reestruturação cognitiva dos mesmos.
As próximas etapas poderão ser realizadas com pintura e colagem, porém a sequência é flexível, acontecendo de acordo com a demanda apresentada.
Juliana Mello
CRP: 05/46575
AARJ: 710/0416
Email: entrelinhas.artepsi@gmail.com
Celular: (21)98659-9119
Bibliografia:
https://www.companhiadasletras.com.br/testeinteligenciapositiva/
ROSNER, S.; HERMES, P. O ciclo da autossabotagem: por que repetimos atitudes que destroem nossos relacionamentos e nos fazem sofrer. 16ª ed. Rio de Janeiro: BestSeller, 2018.
Workshop “O uso das mandalas na prática da arteterapia” – Eliana Moraes
A TCC é uma abordagem terapêutica estruturada e focada no presente, que trabalha para identificar e flexibilizar padrões de pensamentos disfuncionais e comportamentos inadequados que contribuem para problemas emocionais e comportamentais. É baseada na ideia de que nossos pensamentos, emoções e comportamentos estão interligados e que estes influenciam nosso dia-a-dia.
A Arteterapia utiliza-se de processos lúdicos (como pintura, desenho, música, colagem, entre outras formas de arte) como meio de auxiliar a expressão de emoções, pensamentos e experiências de uma maneira não verbal, facilitando a comunicação de questões profundas e inconscientes.
A combinação de ambas as abordagens pode oferecer uma gama mais ampla de ferramentas terapêuticas para lidar com questões emocionais e comportamentais, de uma forma simbólica e criativa, com base nas necessidades e preferências individuais de cada cliente/paciente.